Os bancos do Parque.

“Ai se os bancos do Parque falassem ...”

E como canta Fernando Pereira:

“… aos domingos os namorados,

vão para os bancos do jardim

e assentados, …tralilalarila lalá “ …

   

As histórias do parque da Cidade estão escritas nos seus bancos.

Como na grande maioria dos Parques e Jardins, os bancos do Parque tinham o formato de “onda do mar a caminho da praia”, com uma estrutura em ferro onde assentavam umas ripas de madeira pintada. Bancos cómodos, frescos e de longa duração.

Na generalidade todos os caminhos do Parque tinham bancos para as pessoas se sentarem. Consoante as zonas do Parque, as estações do ano (só Primavera e Verão), os dias da semana e a meteorologia, os bancos eram usados por sectores diversificados de pessoas.

   

O Parque dispunha de 6 entradas directas: a 1 e 2 na avenida do Liceu, a 3 na Miguel Bombarda, a 4 no Rossio ao lado do Tribunal, a 5 junto ao arranha céus e a 6 ao cimo da avenida Salazar.

Regra geral as famílias, os avós com netos, as criadas com as criancinhas, utilizavam os bancos situados nos caminhos mais movimentados.

Aos domingos os bancos situados no caminho paralelo à Rua Miguel Bombarda eram os preferidos pelos típicos namorados da época, “a sopeira e o magala” que ali descansavam após algumas caminhadas “à vista”. Estes eram os primeiros assentos já que, à medida que o namoro avançava, a respiração tanto ofegava que começavam a ter de descansar no banco junto ao Camões, seguramente atraídos pela idílica inspiração e o maior sossego.

Os estudantes tinham uma clara preferência pela proximidade do Liceu.
Os namorados do Quadro de Honra, aqueles tão bem comportadinhos que até os Pais sabiam, para não perderem
nenhuma matéria, passeavam lado a lado juntinho ao muro do Liceu. Para trás e para a frente lá andavam sem cansar a discutir todas as matérias ensinadas na semana.
Os outros, os normais, também respeitavam o apelo didáctico da escola, é certo, mas preferiam os bancos e os recantos do caminho do Parque paralelo à Avenida do Liceu. Aí sim, era estudo a sério sem dar nas vistas …

O meu 1º banco no Parque.

Terá sido em Setembro de 1963, por mero acaso, a minha estreia num banco do Parque da Cidade.

Era um banco apetecível, com muita procura mas no período de férias tinha pouca utilização. Entrava-se pela entrada 2 e logo no primeiro cruzamento virava-se à direita tomando o caminho paralelo ao Liceu. Era o primeiro banco que ficava encoberto por um
bonito tronco de uma frondosa árvore, seguramente ali plantada por mão de Deus, pois a sua localização era Divina. Ao sentar, era muito conveniente dar a esquerda ao par o que possibilitava olhar o movimento dos caminhos ao redor.

Numa tarde daquele fim de Verão, e após o convívio entre os amigos, fiquei a sós com o meu par e, descíamos a caminho da esplanada do Parque, quando ouvimos o mais bonito chilrear de um passarinho transportado numa brisa leve, fresca e muito
agradável. Era um sinal. Sem dúvida um convite. Não resistimos e apesar de algum receio e muita timidez, lá nos sentámos. E foi em boa hora pois vieram mais passarinhos e até passarinhas, uma brisa e outras brisas e nós lá nos fomos descobrindo embriagados naquele belo concerto que por encanto foi em rigoroso exclusivo já que ninguém mais passou por ali.E aquele ficou, para sempre, o nosso banco !

Com o passar dos anos e graças à grande fertilidade dos solos da Quinta do Maçorim já descoberta pelos Frades dos Capuchus no Séc.XVII, outros bancos ganharam grande preponderância e procura pelos diversos públicos alvo.

Em 1968/69 descobri o meu último banco do Parque. Era o último banco localizado no caminho do Liceu no enfiamento do ringue de patinagem. Tinha um arbusto que dava uma bonita sombra e, apesar de estar próximo do ringue, era muito discreto e possibilitava grandes momentos de descontracção. Só tinha um contra. Em vez do chilrear dos passarinhos ouviam-se as conversas e os palavrões dos miúdos que praticavam o hóquei em patins no ringue de patinagem. Limitação que fomos superando com alguma tranquilidade.

E assim fomos saudavelmente felizes nos bancos do Parque da Cidade !

porep

Alberto Rosário também foi muito feliz no Parque

Jorge Marques também foi muito feliz no Parque

Foto Camões da Foto Germano

publicado por porViseu às 01:40