Carta de Amor a Viseu, por Jorge Marques

Minha querida Cidade de Viseu

 

Claro que foste o meu primeiro amor, eras como se eu vivesse numa ilha e tu fosses a única, espaço e tempo por igual. Mas em vez de te amar apenas, quis o destino que me apaixonasse por ti, aquela paixão que quase mata, aquela paixão cega que também quer transformar o outro para ser igual a nós e que num dia de zanga, num grito de revolta adolescente, acaba por nos libertar definitivamente…é verdade, um dia disseste-me que gostavas de ser como eras, que o nosso amor já não cabia naquela terra, que eu precisava ir para longe antes que te viesse a culpar ou odiar para sempre. Foi assim que nos separámos, eu queria-te diferente, tu querias-me diferente e tu ficaste e eu segui o meu caminho.

Mas minha querida cidade, foi com as tuas mulheres que eu aprendi quase tudo, tudo o que nunca mais esqueci, aquilo que de mais importante alimenta a nossa vida e nos faz crescer e ser gente.

 

                

 

 

Nasci nas mãos de uma parteira, aprendi a andar com a minha avó no jardim Thomaz Ribeiro, aprendi a falar na Cava do Viriato à trela da minha mãe, aprendi as primeiras letras com vistas para o Rio Pavia com uma professora, nessa escola, onde com 0it0 anos, tive também o meu primeiro amor. Mas o primeiro beijo à séria foi dado no Parque, tão à séria, que acabou interrompido pelo guarda do parque com a ameaça de chamar a polícia.

Aprendi quase tudo o que não esqueci com as mulheres da minha cidade, aprendi o português, o francês e o inglês, a geografia e a história, as ciências da natureza e sem ser da natureza. Nunca aprendi matemática porque o professor era um homem.

Aprendi o uso dos sentidos nas ruas da minha cidade, aprendi a ver e a olhar-te, aprendi o teu cheiro, um aroma de rosas e mimosas, aprendi o teu sabor nas tascas, adegas e quintas dos amigos, aprendi os teus sons e os teus silêncios, aprendi a tocar e a tocar-te, suaves gestos de um quase escultor das palavras.

Aprendi tudo, quase tudo, a amar, a chorar, a sofrer, a ter ciúmes, a desesperar, a rezar, a cantar…tudo minha querida, quase tudo aprendi com as tuas mulheres e em ti minha cidade.

Aprendi os caminhos andando pelas tuas ruas, nesse tempo ainda não havia rotundas e o Fernando Ruas era da minha idade e altura, nas ruas direitas e tortas, nas modernas ou mais antigas, nalgumas que até já mudaram de nome, uma delas tinha até a data do meu aniversário e eu achava que por isso era a minha rua…adorava as tuas esquinas, as encruzilhadas, o ver passar as meninas que vinham e dançavam como flores nas quatro direcções, tão formosas como o nome da rua.

Aprendi nos teus cafés que me faziam antever o meu amor pelos cafés de Paris…eu amava as tuas pedras, o teu granito, aquela energia que desprendias e que nos dava toda a força do mundo.

Eu amava os frios do teu inverno, naquele tempo nevava quase todos os anos…cidade branca de escolas fechadas, mas amava também o cheiro da primavera e as cores do outono…e do verão, os mergulhos nos rios Dão e Vouga, distantes na altura e agora tão perto, naquele tempo não havia piscina, fazia mal à pele, dizia o médico do nosso liceu que era amigo do Salazar, o Dr. Crespo. Foi num desses banhos de verão, que perdi a virgindade, culpa de umas francesas que estavam de passagem, eu sei, foi uma traição, deveria ter sido com uma das tuas mulheres.

Sabes porque te estou a contar tudo isto minha querida cidade, porque muito recentemente, num dia de missa de sétimo dia da minha mãe, eu andei sozinho a visitar-te, por todos os lugares das minhas memórias, nas tuas ruas, praças e monumentos…até que parei na Sé e entrei…e voltei a rezar, depois olhei o Museu Grão Vasco e lembrei-me dele, desse pintor…vocês sabem que ele secretamente pertencia a uma escola maior, chamavam-se os Fiéis do Amor, de que faziam parte Dante, Petrarca e Camões. E diziam eles que os que são pelo Amor são contra Roma…e lembrei-me deles, desses fiéis do amor, desses trovadores e de um não amor a Roma que também deu força a Viriato, o nosso Viriato da Cava.

E com Viriato, Grão Vasco…e tantos outros, de reis a senhores ou homens das galés, percebi porque éramos diferentes, porque as outras pessoas dos outros lugares nos achavam diferentes e não só pelo sotaque! Era porque tínhamos respirado desde a nascença um ar puro e frio, porque cultivávamos desde cedo uma amizade pura e livre, porque nascendo no alto víamos mais longe e da montanha nos cheirava a mar…e muitos partiram atrás desse cheiro que subia o Mondego e o Vouga…há hoje gente de Viriato por todo o Mundo, tenho-os encontrado…uns regressaram, regressarão, outros não…diferentes porque fomos tocados pela força da pedra do Viriato e com a sua espada armados cavaleiros, diferentes pela fidelidade ao amor do nosso Grão Vasco…

De repente, minha querida cidade, percebi que te amava, que nunca deixei de te amar, que foste o meu primeiro amor e provavelmente o último. E tu sabias isso desde o princípio, sabias quando me mandaste embora para os braços das outras cidades por onde andei, amei, vivi…tantas e tão longe essas cidades, tantas e tão violentas paixões. Tu sabias que para te amar eu tinha primeiro de ser livre, é na liberdade de te amar ou não que me prendes.   

Foi como uma peregrinação não preparada, simplesmente aconteceu, era um domingo de manhã, um domingo de outono deste Novembro cheio de sol. Parei tanta vez, para olhar pela primeira vez a fachada de algumas casas mais antigas, tu estavas linda minha querida, tinhas até ganho o prémio de ser a melhor cidade para viver, vinhas nos jornais e as televisões mostravam-te. Senti-te mais vaidosa, fazia-te falta essa vaidade, esse atrevimento, essa forma simples de seduzir quem te olha.

Minha querida cidade, sabes agora que te amo, mas ainda não é tempo de vivermos juntos, vamos ficar por mais algum tempo e quem sabe para sempre em casas separadas, o que não quer dizer separados, nunca mais isso vai acontecer, nem estarei tanto tempo sem te visitar.

Sabes, o amor nesta idade já se curou do ciúme…e eu até fico feliz por te sentir tão amada e por tanta gente…

Minha querida cidade, podia falar de tudo, mas estas não são ainda as minhas memórias, apenas uma simples carta de amor…

 

Recebe este abraço, este beijo e esta declaração de amor…e diz ao Eduardo que a leve e a plante num qualquer jardim…é…temos que inventar por lá O Jardim da Saudade…onde se possam um dia fazer serenatas e cantar as trovas doutro tempo…Grão Vasco foi Trovador…Augusto Hilário e os Tubarões também…e nós todos, mesmo em silêncio, cantamos o amor à nossa cidade…se for preciso invente-se uma letra para essa trova…para este país com falta de uma trova…e de um Viriato.

Com todo o amor deste teu cidadão e amante…anónimo

 

No Zambeze, ao dia 20 de Novembro de 2013

 

Fotos: Arquivo da Foto Germano

 

 

publicado por porViseu às 19:07